May 05, 2007

Viva o Consumo ... Temporário!

“We can’t let the terrorists stop us from shopping.”
- George Bush, September 2001.


Provavelmente a epígrafe acima inscrita é capaz de despertar um sorriso e arrancar um ou outro comentários jocosos por parte dos leitores. Mas suprema das ironias, o tal “shopping” que o presidente dos “Estados Unidos do Planeta” não quer ver travado, não só faz parte da nossa vida diária, como a preenche por completo. É verdade. Ao ponto de compramos e consumirmos não porque precisamos, mas porque queremos. (Baudrillard diria que o consumo é um modo activo de relação e de identificação que o homem tem com o objecto, portanto está explicado “a martelo” porque é que compramos e consumimos tanto).

No entanto, a cultura de consumo, os hábitos de consumo nas sociedades mais afluentes e desenvolvidas estão a mudar gradualmente, ao ponto de estarmos perante um novo paradigma: o da passagem de uma “Sociedade de Acumulação” para uma “Sociedade de Transição”. A abundância e a acumulação de “objectos” ou bens materiais parecem ter os dias contados nas sociedades capitalistas mais desenvolvidas.

Hoje, marcas como a IKEA, Muji, Zara, H&M entre muitas outras, através de certo tipo de atributos que servem de “unique selling propositions”, estão a reeducar o modo como consumimos e a frequência com que compramos e trocamos de bens (as operadoras móveis são igualmente um exemplo interessante de como se conseguiu criar um efeito de substituição permamente dos telemóveis – hoje, ninguém é dono do mesmo aparelho mais de 18 meses).

Por outro lado, é o próprio consumidor que torna o ciclo de vida do produtos cada vez mais curto. Porque se aborrece com mais facilidade e porque não se sente culpado por se livrar de um bem recentemente adquirido por outro ainda mais novo (coisa que os nossos Pais provavelmente nunca fariam, também as circunstâncias monetárias e o conceito de valor eram outros, claro!). Em suma: o consumidor está gradualmente a deixar de ser um colector de objectos, para se tornar num coleccionador de experiências … temporárias.

Daniel Nissanoff no seu “Futureshop” (2006) apelidou interessantemente esta tendência de “temporary ownership”: “Temporary ownership means (…) letting yourself reach for the things that will thrill you over and over again-guilt-free”. Numa cultura cada vez mais hedonista, de pronto-consumo hoje versus nova gratificação-já amanhã, é natural que deixemos de ter necessidade de coleccionar e acumular objectos, passando a trocá-los por outros e por novas experiências.

Segundo Nissanoff o conceito de “temporary ownership” é exponenciado por mercados digitais como o eBay.com, o Circuitcity.com entre outros, que servem de ponto de encontro ou de facilitadores entre uma oferta e uma procura que gerará nova liquidez no bolso dos consumidores e consequentemente, mais e novas aquisições temporárias.

Independentemente de acharmos relevante ou não esta visão quase messiânica e iluminada que Nissanoff tem destas plataformas de troca online, que nos permitem comprar e vender quando nos fartamos dos nossos objectos materiais, o que importa reter é que esta descartabilidade, este consumo de transição irá modificar por completo a maneira como as marcas se posicionarão no futuro junto dos consumidores com ou sem os vários eBays da vida que possam existir no futuro. Sendo assim, um bem haja ao novo consumidor, futuramente conhecido como o coleccionador de experiências … temporárias.


Artigo de opinião pessoal publicado no M&P dia 13 de Abril 2007.

2 comments:

Anonymous said...

Muito interessante :)

foi você que pediu um jorge teixeira? said...

ao menos tu és original no tema e citas fontes, ao contrário do DC da DDB.